A Igreja vive da Eucaristia

A Igreja vive da Eucaristia

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Jesus Sacramentado: nosso tudo!

Como é bom ser tocado por Jesus no Santíssimo Sacramento.

A maior de todas as riquezas, curador dos aflitos, restaurador das almas, curador dos doentes, poço de graças infinitas, refúgio das almas atribuladas, perseguidas e cansadas, centro da Igreja, amado e adorado seja Jesus no Santíssimo Sacramento.

Jesus, na Hóstia Consagrada, Pão Vivo descido do céu, doa-se a nós todos os dias. Dia e noite, reintegra-nos ao amor de Deus, que purifica nosso ser, nos transforma, nos faz homens novos e mulheres novas. Deixe-se ser tocado por Jesus no Santíssimo Sacramento. Essa experiência, só é possível  fazê-la fazendo-a.

Vejamos as palavras do Papa João Paulo II sobre a Eucaristia, na encíclica Ecclesia de Eucharistia:

  • A Igreja vive da Eucaristia. Essa verdade não exprime apenas uma experiência diária de fé, mas contém em síntese o próprio núcleo do mistério da Igreja (nº 1).
  • Do mistério pascal nasce a Igreja. Por isso mesmo, a Eucaristia, que é o sacramento por excelência do mistério pascal, está colocada no centro da vida eclesial (nº 3).
  • A Eucaristia, presença salvífica de Jesus na comunidade dos fiéis e seu alimento espiritual, é o que de mais precioso pode ter a Igreja no seu caminho ao longo da história (nº 9).
  • A Igreja recebeu a Eucaristia de Cristo, seu Senhor, não como um dom, embora precioso, entre muitos outros, mas como o dom por excelência, porque é dom dEle mesmo, da Sua Pessoa na humanidade sagrada, e também da Sua obra de salvação (nº 11).
  • Verdadeiramente, a Eucaristia é mysterium fidei, mistério que supera os nossos pensamentos e só pode ser aceito pela fé… (nº 15).

Dirá o Papa Paulo VI:

Toda a explicação teológica que queira penetrar de algum modo neste mistério, para estar de acordo com a fé católica deve assegurar que na sua realidade objectiva, independentemente do nosso entendimento, o pão e o vinho deixaram de existir depois da consagração, de modo que a partir desse momento são o corpo e o sangue adoráveis do Senhor Jesus que estão realmente presentes diante de nós sob as espécies sacramentais do pão e do vinho” (Solene profissão de fé (30 de Junho de 1968), 25: AAS 60 (1968), 442-443 citado por João Paulo II – Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, nº 15).

  • Sempre que no altar se celebra o sacrifício da cruz, no qual “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado” (1 Cor 5, 7), realiza-se também a obra da nossa redenção. Pelo sacramento do pão eucarístico, ao mesmo tempo é representada e se realiza a unidade dos fiéis, que constituem um só corpo em Cristo (cf. 1 Cor 10, 17) (Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 3 citado por João Paulo II – Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, nº 21).
  • […] a Eucaristia apresenta-se como fonte e simultaneamente vértice de toda a evangelização, porque o seu fim é a comunhão dos homens com Cristo e, nEle, com o Pai e com o Espírito Santo (nº 22).

Concreto e profundo, S. João Crisóstomo comenta:

Com efeito, o que é o pão? É o corpo de Cristo. E em que se transformam aqueles que o recebem? No corpo de Cristo; não muitos corpos, mas um só corpo. De facto, tal como o pão é um só apesar de constituído por muitos grãos, e estes, embora não se vejam, todavia estão no pão, de tal modo que a sua diferença desapareceu devido à sua perfeita e recíproca fusão, assim também nós estamos unidos reciprocamente entre nós e, todos juntos, com Cristo (Homilias sobre a I Carta aos Coríntios, 24, 2: PG 61, 200 citado por João Paulo II – Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, nº 23).

  • Pela comunhão do corpo de Cristo, a Igreja consegue cada vez mais profundamente ser, “em Cristo, como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 1 citado por João Paulo II – Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, nº 24).

Jesus está na Eucaristia para todos nós, para que você possa fazer a sua experiência pessoal com Ele, deixando-se amar e ser tocado pelo Amor que tudo vê e sabe sobre você.

É indescritível a experiência que fazemos com Jesus Sacramentado exposto no Ostensório. Quando Jesus passa, dá-se um momento de encontro, ternura, afeto, libertação, cura, prodígios e milagres. O Século dos séculos, o Princípio e o Fim, o Alfa e o Ômega, o Senhor dos Exércitos, o Leão da Tribo de Judá, o nosso Libertador e Senhor, com toda a autoridade e poder de um Deus, nos envolve e nos enlaça. Somos todos curados! Sim. Amados e libertados pelo seu divino poder e glória.

A experiência – vou dizer daquilo que senti e presenciei – é como estar exposto ao Sol, mas é muito mais que o Sol. O Sol, criatura de Deus, proporciona a vida na terra; Jesus será o nosso Sol eterno, nossa Luz radiosa, nossa Paz e amor eternos.

Estar diante de Jesus Sacramentado é como tostar diante do Sol – para estabelecer um nível de comparação ainda muito distante do que possa ser tal experiência. Na praia, quanto mais expostos nos colocamos ao Sol, mais queimados ficamos. Assim se dá com Jesus Eucarístico: quanto mais expostos, abertos, desejosos estamos de Jesus no Santíssimo Sacramento, mais somos tocados e curados. Um toque sem igual, em que não se dá apenas a cura física (pode acontecer a cura ou não, vai depender dos planos de Deus), mas, em especial, nos recoloca no trilho, na senda, na vereda correta da vida; põe-nos de pé, direciona-nos para o caminho do Pai, faz-nos novos, com um ardor e vontades novas.

É isto o que Deus mais quer de nós: ver seus filhos caminhando em Seus caminhos, rendendo-Lhe glória, louvor e adoração, e não perdidos por aí, sem rumo, sem meta, seduzidos pelas trilhas tenebrosas do mundo. Não! Só existe um único caminho. A Bíblia não cogita dois caminhos. Jesus é bem claro em João 14,6 quando diz que Ele é “o” caminho, e não um caminho: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Jesus é nosso caminho, verdade e vida. Se não estamos com Jesus, Verdadeiro Deus e Senhor, estamos, desculpe-me dizer, verdadeiramente nas trevas. E o que você escolhe? Trevas ou luz? Vida ou morte? Céu ou inferno? Deus ou o diabo? A escolha sempre é nossa. Deus nos dá toda essa liberdade.

A propósito dessa escolha São João Bosco dizia:

Quereis que o Senhor vos dê muitas graças? Visitai-o muitas vezes. Quereis que Ele vos dê poucas graças? Visitai-o poucas vezes. Quereis que o demônio vos assalte? Visitai raramente a Jesus Sacramentado. Quereis que o demônio fuja de vós? Visitai a Jesus muitas vezes. Quereis vencer ao demônio? Refugiai-vos sempre aos pés de Jesus. Quereis ser vencidos? Deixai de visitar Jesus… (ORAÇÃO DE SÃO JOÃO BOSCO)

À medida que nos aproximamos de Jesus Sacramentado, somos transformados por Ele e conformados ao Seu amor e vontades. Nossa visão do mundo, isto é, o modo como o enxergamos e o vemos, muda. É impressionante: Jesus nos dá um novo prisma para enxergarmos a vida.

Certa vez, quando procurei uma comunidade de Vida e Aliança, para me oferecer ao serviço, seus integrantes me disseram que o carisma deles era: evangelizar a partir de adoração, revelando o amor Misericordioso de Jesus. Eu pensei comigo assim: então tá, vamos revelar esse amor através da Eucaristia. Naquele momento, eu não sabia o que estava falando e muito menos o que era revelar Jesus a partir da adoração.

9.1 Uma pausa para falarmos sobre o que é carisma

Em primeiro lugar, carisma é um dom de Deus; é, para dizer de uma forma bem resumida, um modo de evangelizar, a maneira de evangelizar própria de um grupo, de uma comunidade, de uma congregação. Carisma é um dom recebido de Deus. Portanto, não é mérito nosso. Deus, desde toda a eternidade, escolhe a cada um dos Seus filhos para evangelizar de um modo específico. Quando digo específico, eu não estou restringindo a ação do Espírito Santo em nós, pois, pelo batismo, recebemos todos os dons do Espírito Santo: os infusos que são para a nossa santificação (Temor de Deus, Fortaleza, Piedade, Conselho, Conhecimento, Sabedoria, Discernimento); e os efusos (ou carismáticos) dados para o serviço (Dons de Línguas, Interpretação das Línguas, Ciência, Palavra de Sabedoria, Discernimento dos Espíritos, Cura, Fé, Milagre).

Temos os dons do Espírito Santo, e Deus age em nós da forma que Lhe apraz; o específico a que me refiro é, portanto, o modo de agir, ou seja, o carisma. Carisma é dom Deus. Só podemos agir através dele quando o recebemos de Deus. O carisma é uma faceta do amor de Jesus, dada, por exemplo, a uma comunidade (primeiramente, a partir de seu fundador), para evangelizar daquela determinada forma, daquele modo específico. Por exemplo, evangelizar através da adoração é um carisma; evangelizar com o uso dos meios de comunicação é outro carisma. Ainda exemplificando o carisma, os lazaristas, que preferencialmente cuidam dos pobres; os monges, que se retiram para a oração, contemplação e trabalho; e tantas outras congregações no exercício de seus dons determinados e específicos.

À medida que adoramos Jesus Eucarístico, toda a nossa vida – toda! – é remexida. Jesus Eucarístico vai penetrando todas as áreas da nossa vida, à medida que Lho permitimos. Quando adoramos a Jesus na Eucaristia, nosso interior vai sofrendo modificações.

Em nossas ações, no modo como agir, como falamos, em tudo, enfim. Jesus Eucarístico estará a nossa frente, permeando, penetrando todas as coisas: família, trabalho, estudos, casamento, namoro, isto é, tudo! A mudança é gradual. Quando você olha o mundo a sua volta, você procura repará-lo, conformando-o à Eucaristia.

A carta apostólica do Papa João Paulo II, Mane nobiscum Domine, expressa que: “Cristo está no centro não só da história da Igreja, mas também da história da humanidade. Tudo é recapitulado n’Ele” (nº 6) . O Papa Paulo VI, citado nesse documento, afirmou que Cristo “é o fim da história humana, o ponto para onde tendem os desejos da história e da civilização, o centro do gênero humano, a alegria de todos os corações e a plenitude das suas aspirações” (nº 6).

A vida moderna anda corrida e dispersa em relação aos propósitos de Deus. O mundo está pervertido, afastado de Deus, desejando bens, riquezas, prazeres, dinheiro e aspirando a saciar a sede do ter. A Terra não se dá conta de que o nosso maior desejo é o céu; e desfrutar a intimidade e da glória de Deus; não há desejo maior do que esse dentro do homem, embora ele o negue e o abafe com outras coisas.

Quanto mais afastadas de Jesus Eucarístico, mais esquecidas e frias ficam as pessoas dEle. Quanto mais afastados ficamos de Deus, permitimos que uma crosta, um mofo espiritual, se forme em nossa alma, atrapalhando nossa comunicação com o Criador. Quando estamos afastados de Jesus, deixamos de ser luzeiros – “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14). A distância de Deus provoca a morte gradual da alma, o obscurecimento dos sentidos e a frieza espiritual. Almas longe de Jesus são presas fáceis para o demônio. Fracas, são facilmente manipuláveis e seduzidas.

É impressionante a gana que o diabo tem de nos destruir. A essencia do mal, a própria maldade personificada, esse anjo expulso do céu tem como única missão destruir nossas vidas e a de nossas famílias. Ele é o mestre da destruição. Sobre nós, o inimigo joga sujo e pesado; amarra nossas vidas no pecado (um pecado vai puxando outro, servindo de escada); se não cairmos no pecado, ele joga outra arma poderosa: o desânimo. Fica-nos um alerta e um chamado para nos afastarmos de todas as obras do demônio, e nos aproximarmos do Sumo Bem: Jesus Cristo.

O que é evangelizar senão afirmar o essencial, que Jesus nos ama, vive, reina e está no meio de nós? Anunciar o Reino dispensa formas mirabolantes e confusas nos seus objetivos, mas suplica por uma forma objetiva: levar a todos a existência de Deus e de seu amor – “Esta é a vida eterna: que conheçam a ti, o Deus único e verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que enviaste” (Jo 17,3).

Uma pergunta questionadora como esta: sabia que você é filho querido de Deus?, pode devolver à pessoa a consciência da filiação de Deus. Pode ainda, lançá-la de volta ao plano da salvação, situá-la perante a Deus, recolocando-a diante do Seu amor e estabelecendo uma ponte capaz de tirá-la da situação de morte e trevas para uma situação de luz e vida. Tudo isso porque sua boca foi capaz de proclamar uma verdade; Deus contou com você para o anúncio, dali para frente o Senhor fará toda a obra.

Para esse mundo afastado das coisas do Alto, esquecido, desnorteado, raquítico, porque não tem o Senhor como sustento, aparentemente simples afirmativas como estas o seu lugar é o Céu, você é de Deus, criatura Sua, você é filho amado do Pai, Deus te fez para a santidade, podem tirar alguém do abismo da morte em que se encontra, consertar a bússola da sua existência e redirecioná-lo para o caminho da Vida: Jesus Ressuscitado. Foi o que o Papa João Paulo II fez, ao perguntar – afirmando – que a nossa profunda união com Jesus Eucarístico permite antecipar de algum modo o céu na terra: “Não é porventura este o maior anseio do homem? Não foi isso mesmo o que Deus Se propôs, ao realizar na história o seu desígnio de salvação”? (nº 19).

A interrogação do Papa João Paulo II pedagogicamente nos desperta um amor a Jesus Eucarístico, muitas vezes esquecido. Essa interrogação sacode a nossa alma. Sim! sim!, diz nossa alma à interrogação do Santo Papa, convencida de que Jesus é nosso bem maior, amor maior, desejo maior.

O Papa João Paulo II, dirigindo-se aos consagrados à vida religiosa – mas, também, dirigindo-se a todos nós, porque somos consagrados a Deus pelo Sacramento do Batismo – conclama:

Vós, consagrados e consagradas, chamados pela própria consagração a uma contemplação mais prolongada, recordai que Jesus no Sacrário espera por vós junto dEle, para derramar nos vossos corações aquela experiência íntima da sua amizade, que é a única que pode dar sentido e plenitude à vossa vida” (nº 30).

O Santo Papa ainda dirá:

Vós, fiéis todos, descobri novamente o dom da Eucaristia como luz e força para a vossa vida quotidiana no mundo, no exercício das respectivas profissões e em contacto com as mais diversas situações. Descobri-o, sobretudo para viverdes plenamente a beleza e a missão da família (nº 30).

Na Eucaristia, já não há mais pão! Transubstanciou-se a matéria no Pão Vivo descido do Céu: Jesus Cristo. “Todas essas dimensões da Eucaristia se encontram num aspecto que, mais do que qualquer outro, põe à prova a nossa fé: é o mistério da presença ‘real'” (João Paulo II – Carta Encíclica Mane nobiscum Domine, nº 16).

Do seu irmão,
THIAGO ZANETTI